Pessoas escrotas merecem uma porrada na cara, muitas vezes, mas nem sempre você dá. Aliás, você quase nunca dá, mesmo que elas mereçam muito. Isso é porque você é inteligente. Quando você vai lá e dá um tapa na cara de alguém, mesmo que esse alguém tenha clamado por esse tapa, você modifica as condições do ambiente daquele momento. O movimento do braço, os estalo, a dor, o rosto virando, a marca avermelhada, o desconcerto, a situação exposta, a vergonha, já é. É uma atitude que não tem volta. É de se esperar algo do outro. Algo não bom. Um tapa na cara de alguém sempre puxa uma reação adversa pouco positiva. Pode ser um beicinho, pode ser uma testa franzida. De repente você toma um boxe nos dentes e fica banguela. Uma capoeira nível 2 e teu pescoço quebra, deixando o futebol pra outra encarnação. Uma navalhada, um vômito. Resumindo: tem que lidar com a magnitude do ato de dar um tapa na cara de alguém. E às vezes você recua, com razão.
Mas tem gente que é foda. Tem gente que faz a curva cantando, capota e o carro quica até destruir a placa que você mais gosta na rua. Tem gente que é agrião com chicória e não tem jeito. Se você não dá o tapa na cara, vai continuar te ferrando a vida inteira. Vai ser aquele sofrimento initerrupto. Aquele câncer.
Para este tipo de gente você fica sem alternativa, exceto partir pra dentro. E encarar as consequências. Porque Gandhi era maneiro e coisa e tal, mas ele nunca teve que ligar pro atendimento de uma empresa de telefonia. Há de convir que era um nível mais brando de estresse na vida do Gandhi. Ele hoje, tendo que ficar lendo tulhas de coisas no Facebook, dando hide pra não dar tiro, vendo seus amigos te desprezarem por motivos intangíveis, duvido que Gandhi não ia ter pego aquele lencinho que mantinha pendurado na mão esquerda e teria enforcado um motoqueiro que buzina pro pedestre que tenta atravessar a rua na honestidade, mas não consegue porque os motoqueiros acham que podem tudo, em todas as pistas e todas as direções.
Esse mundo tá só aumentando o nível de oportunidades pra gente ficar muito doido e é provável que a barbárie volte em pouco tempo. Quando este tempo chegar, pode acreditar, eu estarei no meio da rua com uma faixa vermelha na cabeça, separando o hemisfério norte do sul da testa, e vou sair dando tiro de metralhadora pra tudo que é lado. Vou mirar só em crianças. Bum, bum, bum. Não é por maldade, não. É para livrá-los do pior. Porque o momento seguinte será de um nível tão rude de escassez de civilidade, que as velhas serão arremessadas nos trilhos de trem, para que ouçamos aqueles ossinhos fracos fazendo tlec tlec. Vai ser medonho.
É sobre isso que tenho dúvida: o limite entre lascar o tapa na cara ou recuar. Por essa razão escrevi tudo isto, confesso que com emoção. Baixei toda a obra de meu chará, Ludwig e deve-se ter cautela para ouvir Ludwig. Até.