De repente, Milwalke bola com Charles Muller e conta pra ele uma história:

– Um dia um cara estava fazendo um vídeo e bolou com o tamanho do Brasil e começou a quebrar tudo na mesa de uma pousada na beira de uma represa no Mato Grosso do Sul.

– Respira, Charles.

– Tá… Lá estava ele, um jovem garoto, tomando uma cerveja com um velho engenheiro, que tomava Viagra todo dia e falava sobre o tamanho do Brasil. O jovem videomaker bolou com o tamanho do Brasil e começou a quebrar tudo, tudo, tudo, tapa na própria face e jogou sua câmera pro alto e o caceta a quintas, quando que de repente, depois desse acesso rápido, porém eficiente, de fúria, muita fúria, decidiu e comunicou aos berros sua decisão que ia de golfinho até o Paraná.

– O estilo mais bonito, mais inútil e, obviamente, o mais cansativo.

– É. Então ele disse gritando que ia de golfinho até o Paraná.

– O Brasil é grande pra caralho, Charles Muller!

– Ao mesmo tempo, uma vila de pescadores com casas em cima do rio, essas de palafitas, começou a entrar na cornice.

– Na quê?

– Na cornice. Corno, chifre, por causa de um malandro que entrava pela janela e comia todas as mulheres de todo todo mundo. Não tinha pra ninguém. Os maridos saiam pra pescar e o malandro chegava pra comer. E comia geral.

– O Brasil é grande pra caralho…

– Mas um dos maridos, na loucura total dessa cornice toda, decidiu esperar escondido dentro do armário por esse amante safado. E numa total inversão de valores, viu pela brecha entreaberta, o amante entrar pela janela da sua casa e já cair na sua cama com a sua mulher, num papel que cabia a ele, o marido. E ele, o marido, que escondido dentro do armário, fazia o papel de amante, ao ver aquela cena excito-revoltante, saiu com raiva de marido muito traído, pra acabar com a raça do amante que na cama, convenhamos, sacudia a mulher dele de um jeito muito mais interessante.

– O Brasil é grande pra caralho!!!!

– Acontece que o amante, aproveitando o último vem do vai-vem, assim que viu o marido surgir de dentro do armário, deu uma cambalhota pra trás e atravessou a janela, caindo direto na água. E o marido, ainda no susto da agilidade, rapidez e eficiência do amante, gastou três tiros no teto e um na parede, faltando bala pra fazer alguma coisa, enquanto via, desolado, o amante nadador desaparecer no rio lago num crawl perfeito.

– Um CRAWL perfeito!

– Pra não ficar de corno trouxa vouyer na parada, o marido jurou, jurou, jurou que o cara que tava sacudindo geral era, na verdade, um boto. Foi um alívio muito grande pra todos os maridos, e para sua mulher, claro, afinal o boto, como se sabe, é mágico, rouba no feitiço e por isso é café-com-leite na sociedade. Tudo bem.

– Que pais é este, Charles Muller?!

– Mas não é que depois de dois meses inteiros de nado gordo, aquele garoto videomaker lá da represa, que tinha num acesso de fúria prometido que ia de golfinho até o Paraná, pinta no riacho dos pescadores nadando golfinho. E como tecido molhado não vinga, nadava o garoto totalmente pelado. A maridada, que ainda estava de chifre na praça, enxada na mão e brio no solo, quando avistou o garoto-boto vindo, partiu pra dentro rindo de raiva. E o moleque que de tanto nadar golfinho já tava criando asa, infelizmente ainda não voava e não conseguiu entender, muito menos escapar, da fúria dos pescadores de chifre, que desceram-lhe a sarrafa quente, não sobrando nada.

– Que pais é este Charles Muller!!

– E o garoto, que prometeu no Mato Grosso, quase chegou no Paraná. E o Ricardão nadador, porque concidência não se explica se aproveita, nunca mais apareceu.

– Que país é este, Charles Muller?!!

– Pois é, Milwake, este é o país dos sonhos quase impossíveis, das mulheres infelizes e dos animais em extinção.