Um primo, que segundo meu pai eu deveria lembrar, mas eu não me lembro, convidou a familia da minha mãe e do meu pai, ou seja, eu para seu casamento. E aqui estou. Sentado na 5 fileira, do lado a minha mãe, com este jornalzinho na mão, vendo que a cerimônia acabou de começar. Musiquinha e meu primo está estrando na igreja com sua mãe, eu acho, e se encaminhando até o altar onde está o padre. Eu realmente nunca tinha visto a cara desse meu primo na minha frente. Mas tem uma cara boa. Está tranquilo.

E é comprido o corredor dessa igreja. Eu gosto dela. É um lugar bonito. Fiz minha primeira comunhão aqui e ela era muito maior. Ainda é bem grande. Mas visito igreja como um cometa visita, rapidamente, de dez em dez anos. Mas é um lugar muito bonito. E casamento pequeno numa igreja grande é mais bonito ainda.

E minha mãe já está chorando! Meu pai me deve dez pratas. Minha mãe sempre chora em casamento.

– Você ainda vai me dar essa alegria, né?

Eu nunca respondo essa pergunta dela. Eu não falo nada. Eu não sei, na verdade. Será que eu vou casar? Com quem? Por exemplo, na terceira fila, está a única pessoa de quem eu me lembro nesse casamento. É uma menina que cresceu como eu cresci e que ficou linda demais. E está de decote invertido, coisa que só se vê em vestido de casamento. Nesse caso, respondo:

– Pode ser.

Eu geralmente não falo sobre o que eu realmente penso sobre a vida pra minha mãe, mas eu fico feliz quando eu falo e é algo que ela gosta e fica feliz também. Agora vamos ver: todos de pé. Essa dinâmica de ajoelha e levanta é boa. Dá um movimento a festa. Parece que agora vai entrar a noiva. Eu sei porque colocaram a musiquinha dois. Vamos ver se eu me casaria com ela. Meu primo no altar, esperando, a porta se abrindo lentamente. A noiva tem todo um tratamento especial. Eu acho isso maneiro. E vamos ver. Lá no final do grande corredor. Abriu, aeeee.

E lá está a noiva, de branco, bonita, hein. Bem bonita. Casou, bem. Ih, mas cade o pai? Sem pai. Sozinha.

Minha mãe disse no carro que essa menina, a noiva, não fala com o pai há uns vinte anos. Mas que ela foi falar com pai, para ele entrar junto com ela na igreja. E minha mãe achou que foi o melhor que ela fez. E eu também, mas pelo visto, não adiantou. O pai dela não apareceu.

E lá está a noiva, parada na porta da igreja, linda e sozinha. Mas não está chorando, nem está triste. Está certa. E está lá de longe, contando pro meu primo no altar, o que aconteceu. E meu primo começa a andar calmamente em direção a ela. Aí ela chora. Aí todo mundo chora. Aí, só depois daí, eu choro.

Ele busca ela lá no fundo, e percorrem juntos toda a extensão da igreja. Foi tão bonito que por mim, já estavam casados. O pai da noiva perdeu. Azar o dele. E meu primo? Tái, gostei do cara. Deve ser meu primo mesmo.

Agora senta, ajoelha, levanta, senta. É legal. Chegamos ao momento do sim. Esse é bom. Um dia eu ainda quero ver um não. Mas assim. Hoje por exemplo, não. Nem comigo, pelamordedeus. Nem com minha irmã, sei lá. Que não veio. Minha mãe não casou. Nem meu pai.

Aliás, uma vez botei coca-cola pelo nariz quando meu pai mandou na mesa:

– Se casamento fosse bom, não precisava de testemunha.

Minha mãe ficou pra morrer. A gente riu. Deve ser difícil pra ela. Mas eu entendo também o meu pai. Eu não teria coragem de prometer um sim pra tudo por alguém. Ainda mais na frente de tanta gente assim, bolo, DJ e salgadinho. Prefiro ser platéia. Na moral.

Parece que tá rolando um tumulto ali. O padre tá chamando o noivo. Os padrinhos não chegaram. Bem que eu vi que estava maior maluquice aquelas cadeiras vazias ali. Mas e aí. Parece que não pode ter casamento sem testemunha. Hahaha, meu pai deu uma risada. Foi repreendido claro. Eu ri também, mas ninguém viu que eu ri.

Meu primo vai falar:

– Bom, eu não me esqueci dos padrinhos, nem eles se esqueceram de nós. Eles vieram mas não sabem que são meus padrinhos. Eu e Joana escolhemos os padrinhos, mas a gente não queria que eles viessem por causa disso, nem se sentisse na obrigação de nos dar um presente mais caro. Mesmo sem saber que são padrinhos, todos vieram e vamos chamá-lo agora.

E ele começou a chamar:

– Minha irmã Aline, meu amigo João,  Dona Cintia, Seu Danilo, minha tia Adelaide, e as pessoas iam se levantando e se encaminhando emocionadas pras cadeiras do altar.

Depois do sétimo par de padrinhos eu fiquei com medo dele me chamar. Mas logicamente não aconteceu isso. Aconteceu que o padre, perguntou:

Você promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando sua esposa e respeitando-a todos os dias da sua vida até que a morte os separe? Sim. Sim.

Taí, prometeu tem que cumprir. E eu casaria, mas hoje não. Hoje quem casou foi o meu primo, de quem eu não me lembrava, mas que do casamento não vou esquecer. Aquela menina, com o cabelo preso, que parou de chorar e ela dá um frio na minha barriga. É o pescoço. “O pescoço é a fronteira entre a cabeça e o corpo”. Eu vi essa frase numa porta de banheiro. Achei fraca, mas achei bonita. Casar devia ser nesse momento. Quando a gente tá assim, tão perto da beleza das coisas. Talvez esse momento se recrie, como hoje. Talvez ele só aconteça uma vez na vida. Bom, vou saber quando chegar a hora. Tomara.

Casamento acabou bonito, cumprimentos, todos pegando seus carros, todos indo pra clube do mini-convitinho, todos parando seus carros, todos entrando na festa.

Hora da festa, a parte boa.

Meu pai vira outra pessoa, minha mãe fala pelos cotovelos com platéia atenta. Incrível. E acabei de descobrir com a minha já sinistra técnica de espionagem que aquela menina do cabelo preso preto é minha prima. Falei:

– Não pode ser.

Mas é uma prima distante, fui tranquilizado. E fui simpático e ajudei ela a pegar uns doces antes da hora. Ficamos comendo no lado de fora do salão. Chovendo e a gente debaixo de um guarda-sol. Ela disse que eu era engraçado. E me deu aquele frio na barriga. Beijar, mesmo pra mim, que sempre fui tranquilo, ainda é muito emocionante. Vou falar com ela essa semana.

E minha mãe depois veio dizer que o assunto da festa foi minha prima saindo com o guardanapo de pano cheio de docinho. Fiquei aliviado, mas achei baixo astral esse clima de fofoca, fulaninha não sabe se comportar. Pessoal acha melhor quando sobra. É mais chique.

Sei lá se algum dia vou dar essa alegria pra minha mãe. Vou tentar. Eu faço o que eu posso. Isso da até pra prometer.

Você aceita esta tarefa de encontrar o amor de sua vida como seu legitimo esforço?

– Aceito.